Arquiteto e urbanista de formação, com especialização em planeamento urbano e gestão de cidades, Marcos Gomes é luso-brasileiro e natural do Brasil, onde construiu um percurso sólido no planeamento e desenvolvimento de centros comerciais em todo o país. Uma experiência que o levaria a cruzar o Atlântico, primeiro para Angola – onde liderou o desenvolvimento do primeiro centro comercial do país – e, depois, para Portugal, aportando para a Widerproperty uma visão internacional integrada da gestão de centros comerciais e do papel destes ativos na dinâmica urbana.
“Mais que um entusiasta do setor, sou um apaixonado por shoppings”, afirma o responsável em entrevista à Vida Imobiliária. “Entrei no setor durante o estágio na faculdade. Depois, comecei por fiscalizar projetos de lojas e fui transitando por todas as áreas da operação, da manutenção à direção”, lembra, sublinhando que graças a esse percurso foi desenvolvendo uma visão transversal do setor que é hoje um trunfo essencial do ponto de vista da gestão.
A experiência em Angola marcou uma etapa decisiva, com o convite para a liderança do projeto de desenvolvimento do Belas Shopping, o primeiro centro comercial do país. “Foi um projeto estruturante. Acompanhei desde a fundação até à inauguração e depois assumi a direção durante três anos. Obriga-nos a pensar o shopping como um organismo vivo e integrado na cidade.”
Até que, após mais de uma década ligada a um grande operador brasileiro, decidiu regressar ao Brasil para se lançar a solo, criando uma empresa dedicada ao planeamento e desenvolvimento de centros comerciais, tendo na análise aprofundada do mercado, do comportamento do consumidor e da integração urbana destes projetos um dos seus grandes fatores diferenciadores. “Sempre me interessou perceber como o shopping se articula com os fluxos da cidade. Um centro comercial não pode ser um objeto isolado”, afirma.
Este percurso dos dois lados do Atlântico começaria a trazê-lo com frequência a Portugal, até que em 2016 decidiu radicar-se no nosso país com a família. E, se numa primeira fase continuou a gerir o negócio que detinha no Brasil, com o tempo passou a acompanhar cada vez mais de perto o mercado nacional, onde foi desenvolvendo vários projetos e expandindo a sua rede de contactos. O convite “oficial” para integrar a Widerproperty surgiu no final do ano passado, num momento em que a empresa tem sob gestão sete centros comerciais distribuídos entre Tavira, Torres Novas, Guarda, Caldas da Rainha, Famalicão e Madeira, afirmando-se como uma referência na gestão e reposicionamento de complexos de retalho.
“Voltar a ser executivo foi um desafio que aceitei com enorme entusiasmo. O retalho é a minha paixão”, confessa, acrescentando que uma das suas missões é garantir que esta área de negócio da Widerproperty vai continuar a crescer a um ritmo acelerado.
Sem entrar em detalhe, o especialista diz que “temos metas de crescimento ambiciosas” mas sublinha que “crescer não é apenas aumentar carteira” de centros sob gestão, captando ativos já em funcionamento. “Crescer é dinamizar, reposicionar e criar valor no longo prazo. E sempre com uma abordagem alinhada com o ADN da empresa, assente numa forte cultura de governação e rigor operacional; pois isso dá-nos flexibilidade para adaptar cada centro à sua realidade local.”
Novos conceitos e formatos no horizonte
De acordo com o responsável, o crescimento futuro da Widerproperty nesta área de negócio passa também pela diversificação de formatos onde está presente. “O retalho não se limita aos shoppings tradicionais”, lembra, admitindo que formatos como os retail parks, o comércio de rua organizado, lojas stand‑alone e, ainda, novos conceitos ainda emergentes também estão no radar.
“Muitas oportunidades surgem precisamente onde outros veem maior risco”, diz, apontando o exemplo do Famalicão Central Park, um projeto de uso misto liderado pela Widerproperty que transformou um ativo logístico “num complexo multiusos urbano, moderno e completamente alinhado com as tendências de integração do retalho com outras operações como escritórios, clínicas, ERPI’s, habitação e todo um universo de serviços”.
Por tudo isto, Marcos Gomes antecipa para 2026 um ano de forte dinamismo. “As metas são ambiciosas e o mercado vai ouvir falar da Widerproperty.” E o caminho é claro: crescer com inovação, gestão ativa e foco no desempenho dos ativos. Até porque, num setor tão competitivo como este, “o valor de um centro comercial não está no edifício, mas na dinâmica que consegue gerar. Manter esse organismo vivo, ligado à cidade e financeiramente sustentável é o verdadeiro desafio — e é aí que queremos fazer a diferença.”
Gestão eficaz começa no terreno
Para Marcos Gomes, no setor do retalho – e em especial no dos centros comerciais - a gestão eficaz começa no terreno. “Não acredito numa gestão à distância. Estou todas as semanas nos centros comerciais, em contacto direto com lojistas, equipas e parceiros.” A essa presença in loco tem de aliar-se uma leitura profunda e constante dos dados económicos, demográficos e urbanos. “Na Widerproperty cruzamos os dados que extraímos dos nossos centros com informação estatística do INE, da APCC, fluxos urbanos e análise de consumo; porque em última análise, a decisão tem sempre de ser técnica.”
Ainda para mais num mercado maduro como o português, onde a construção de novos centros comerciais é quase uma coisa do passado e o aporte de valor de empresas como a Widerproperty passa sobretudo pela entrada em ativos já em funcionamento, reposicionando-os. “Não existe um modelo único de shopping. Cada centro tem de ser pensado à medida da sua cidade, do seu público e do seu momento”, ou seja, o reposicionamento dos ativos passa, cada vez mais, pela experiência do utilizador.
“O shopping deixou de ser apenas um local de compras. Hoje, a compra é uma consequência”, advoga Marcos Gomes, sublinhando que o que diferencia os ativos já não são as marcas ou as lojas que nele operam mas, sim, a experiência global que proporcionam à sua audiência, a nível de conforto, mix comercial, serviços, eventos e conveniência.
Uma lógica que parece ter ganho ainda mais relevância no contexto pós-pandemia: “as pessoas têm uma necessidade intrínseca de convívio. O físico continua a ser essencial, mas tem de estar integrado com o digital. E é por isso que os centros comerciais são hoje verdadeiras plataformas omnicanal.”
ESG, tecnologia e digitalização são pilares centrais na estratégia
A sustentabilidade é outro pilar central da estratégia da empresa, através do programa GoGreen, alinhado com os princípios ESG. “Falamos de eficiência energética, controlo de consumos, painéis solares, mas também de envolvimento com a comunidade local. Isso cria ligação emocional e valor duradouro para os ativos.”
Em paralelo, a digitalização dos centros comerciais é encarada como inevitável, e como tal, nos próximos meses “a Widerproperty vai atualizar-se tecnologicamente e digitalizar-se cada vez mais”. Até porque, “não vamos conseguir comunicar com as gerações mais jovens sem integrar tecnologia e inteligência artificial.” A tecnologia, sublinha, deve estar ao serviço da experiência humana: “usar dados para compreender melhor o cliente e oferecer experiências mais relevantes.”