Falta de oferta continua a sustentar preços da habitação

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Centro de Congressos do Estoril

A manhã da Convenção da APEMIP ficou marcada pela análise do contexto económico e da evolução do mercado imobiliário. Assim, numa perspetiva económica, Philippe Laporte, deputy CEO da UCI, afirmou que os antigos países PIGS são hoje "a locomotiva da Europa". Recordou também os sucessivos choques económicos dos últimos anos, - pandemia, guerra na Ucrânia e conflito envolvendo o Irão, e explicou que continuam a influenciar as decisões dos bancos centrais.

Segundo o responsável, o Banco de Portugal mantém uma previsão positiva para o crescimento económico nacional, apesar da revisão em alta da inflação: "O mercado de trabalho é forte, a comparar com outros países europeus, e temos procura imobiliária bastante forte", e acrescentou que "a procura recuperou mais depressa que a oferta habitacional disponível", salientando que, apesar da melhoria do licenciamento em 2024, o número de habitações concluídas continua abaixo das necessidades do mercado.

Laporte lembrou ainda que Espanha e Portugal apresentam algumas das taxas de juro hipotecárias mais competitivas da Europa, embora tenha alertado para a incerteza quanto à sua sustentabilidade e para o impacto que um eventual agravamento do contexto geopolítico poderá ter na inflação.

Como síntese, apontou oportunidades sustentadas pelo crescimento económico, pelo mercado de trabalho resiliente e pela procura, mas identificou como principais riscos a evolução da energia, da inflação, da acessibilidade à habitação e da disciplina de crédito.

Especialistas não antecipam descida dos preços

Na mesa-redonda moderada por José Gabriel Quaresma, da CNN Portugal, foi analisado o atual momento do mercado imobiliário.

Pedro Brinca recordou que Portugal "é uma pequena economia aberta" e, por isso, particularmente exposta aos choques internacionais, sobretudo aos preços da energia. Explicou ainda que "há um canal importante que é a gestão de expetativas", capaz de influenciar a inflação.

Ricardo Valente considerou que o crescimento económico acima da média europeia é positivo, mas alertou que a falta de resposta da oferta continua a pressionar os preços: "Este aumento de rendimento tem sido transferido diretamente para o preço, porque não há aumento de oferta. Temos um problema. O crescimento é positivo, mas devíamos acelerar a redução fiscal e ter um Estado que permitisse um choque de oferta."

João Braz afirmou que existem sinais de estabilização na atividade, mas não nos preços: "Há sinais de estabilização no arranque deste ano, o que acaba por ser natural depois de muitos anos de forte procura. O mercado estará a transacionar menos, mas a preços mais elevados." O responsável do idealista acrescentou que "não prevemos que haja uma grande descida de preço nos próximos meses" e que, enquanto a procura estrutural persistir, "dificilmente os preços vão descer."

Pedro Brinca defendeu que a inflação deverá manter-se elevada durante mais tempo, não antecipando reduções significativas das taxas de juro: "Não há uma bala de prata que resolva tudo. As políticas de estímulo da procura são as mais fáceis de passar, mas só estamos a tirar casas a uns para dar as outros, sem aumento de oferta." O economista apontou ainda problemas estruturais como requisitos de construção desadequados, escassez de mão-de-obra e insuficiência de transportes públicos.

Ricardo Valente destacou que Portugal apresenta atualmente um nível de alavancagem financeira saudável, mas lembrou que existe um segmento muito dependente do crédito, nomeadamente os jovens compradores da primeira habitação, prevendo que "o mercado vai ser muito mais seletivo."

Por sua vez, João Braz, reiterou que os preços continuam estáveis nos anúncios publicados, embora os imóveis possam permanecer mais tempo no mercado e exista maior margem para negociação.

Apesar de perspetivas distintas sobre a evolução do mercado, os intervenientes convergiram na ideia de que o principal desafio continua a ser estrutural: enquanto a oferta de habitação não acompanhar a procura, dificilmente haverá uma correção significativa dos preços. A necessidade de aumentar a construção, remover entraves ao licenciamento, qualificar os profissionais e criar condições para um mercado mais equilibrado foi um dos principais consensos que marcou o encerramento da manhã.