Convenção APEMIP destaca inteligência relacional, nova lei e desafios da habitação

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Centro de Congressos do Estoril

A Convenção da APEMIP arrancou com a intervenção do diretor da Vida Imobiliária, António Gil Machado, que explicou o propósito do encontro. "Este é um dia pensado para quem está no terreno. Manhã mais institucional e de economia, porque o peso da mediação é importante, e é necessário dar visibilidade à APEMIP enquanto força da nossa sociedade."

Já Pedro Megre, CEO do Grupo UCI, recordou que esta foi a terceira edição do IMOCIONATE organizada em conjunto com a APEMIP. Entre os aspetos abordou destacou-se o da inteligência artificial, que, segundo o responsável, já faz parte do quotidiano do setor; no entanto, defendeu que o principal desafio continua a ser humano: "A IA já está na nossa vida e está a transformar a forma como trabalhamos, tomamos decisões, molda um pouco até a forma como nos relacionamos. Vamos falar muito dela. Mas este evento trata-se de inteligência relacional, são as relações que tentamos potenciar."

Pedro Megre destacou ainda que o mercado continua condicionado pela escassez de oferta e pelos problemas de acesso à habitação. "Sabemos que o nosso mercado tem grande escassez de oferta e problemas de acesso, já se vê alguma desaceleração na procura, mas sem correção de preços. As intervenções públicas ainda só tiveram efeito do lado da procura, ainda não do lado da oferta. Por isso, é fundamental criar confiança, ser empático, ter capacidade de interpretar matizes emocionais, e tudo isto é inteligência relacional. É com o prosperar destas relações que o negócio cresce."

Sucesso da mediação imobiliária assenta nas relações

A presidente da APEMIP, Patrícia Barão, defendeu que o sucesso da mediação imobiliária assenta nas relações de confiança construídas com os clientes: "Quando trabalhamos nesta área, sabemos que o sucesso é parte das relações, não é possível trabalhar em mediação sem criar laços de confiança, que se conseguem pelo nosso conhecimento do mercado. Temos de ser especialistas para conseguir acompanhar o processo de compra, de arrendamento."

Acrescentou que o conhecimento do mercado já não é suficiente: "Já não basta sabermos tudo sobre o mercado, temos de ser capazes de usar as ferramentas que temos ao nosso dispor. É um dia para pensarmos nas pessoas que ajudámos até aqui e que vamos ajudar no futuro."

Foi também destacado pela dirigente o papel da mediação no debate público e o impacto da futura revisão legislativa: "Somos nós que estamos na primeira linha do mercado imobiliário, por isso temos estado no fórum público, para mostrar o que o mediador e o setor precisam. A mediação não é só casas, é um tema muito mais alargado que isso."

Sobre a nova lei, afirmou que "o futuro da profissão não vai estar escrito na lei, (...) nós é que vamos decidir o futuro da nossa profissão." Patrícia Barão recordou que a atual legislação "é de 2013, completamente ultrapassada", acrescentando que a futura lei introduzirá exigências de formação: "Os bons profissionais vão continuar a fazer parte, a fazer os seus negócios. Os outros, não vão ter lugar."

A terminar, apelou ao reconhecimento da profissão: "Temos de ter a confiança e conforto e o coração aberto para dizer 'eu sou agente imobiliário', com orgulho e força. É uma profissão que merece esta dignificação. Quem faz a mediação e está todos os dias no terreno, é quem vai, no fim do dia, causar impacto na outra pessoa e deixar a sua marca."

Nova lei deverá reforçar a formação obrigatória

Na entrevista conduzida durante a convenção, o presidente do Conselho Diretivo do IMPIC, Fernando Batista, considerou que "a inteligência relacional é relevante" e afirmou que a profissão mudou profundamente na última década: "Mudou, desde logo, a competitividade, o mercado da mediação é muito mais competitivo do que há 10 anos." Segundo o responsável, aumentou igualmente a consciência sobre a importância da confiança e da qualificação profissional: "Há maior sensibilização de quem trabalha na mediação que a confiança é o maior ativo que se pode ter. É preciso conhecer e estar-se capacitado. Queremos que o novo enquadramento legal seja uma alavanca para podermos melhorar mais."

Fernando Batista destacou ainda que Portugal se tornou um destino de investimento imobiliário, aumentando a exigência sobre os profissionais: "A formação é essencial, e hoje, com a velocidade da disseminação da informação, uma má prática de um ou dois operadores tem um efeito de dominó."

O presidente do IMPIC lembrou também as responsabilidades dos mediadores no combate à criminalidade económica: "Se o imobiliário é propenso a estes negócios menos lícitos, se há dificuldade em obter a informação para o evitar, se há obrigações de regulamento europeu, o mediador tem de ter a noção de que é responsável também no processo."

Relativamente à inteligência artificial, revelou que o organismo já utiliza esta tecnologia para acelerar processos administrativos: "Hoje, com a IA, conseguimos atribuir licenças de mediação imobiliária num quarto do tempo. Não aumentamos o número de recursos humanos, pelo contrário, mas porque a IA permite-nos ser mais céleres."

Anunciou ainda um protocolo com a Autoridade Tributária para acesso às transações imobiliárias: "Fizemos um protocolo com a AT através do qual vamos receber todas as transações imobiliárias que são feitas. Porque os dados são 'ouro'. Apelamos a todos os que aqui estão presentes para que se preocupem muito com a proteção de dados."

Entre as prioridades do IMPIC está também o combate à atividade ilegal: "Um dos grandes focos do IMPIC é combater o exercício da atividade ilegal da mediação, porque ela é lesiva do Estado, dos consumidores, e da profissão."

Sobre a futura legislação, explicou que a proposta pretende adaptar o setor às novas realidades: "A nova lei está em circuito legislativo, e o que o IMPIC propôs foi uma lei que se adapte às novas realidades, da IA e sobretudo que preveja dar maior capacitação ao setor."

Defendeu ainda a criação de formação obrigatória para todos os profissionais: "Temos de obrigar a que todas as pessoas que trabalham neste setor tenham formação obrigatória, inicial e sequencial."

Fernando Batista revelou que existem atualmente 11.574 empresas de mediação registadas no IMPIC, mas admitiu que ainda não existe um registo do número de profissionais em atividade, considerando essa informação essencial para controlar o cumprimento das novas exigências formativas.

Oferta continua a ser o principal problema

Na análise económica, Philippe Laporte, deputy CEO da UCI, afirmou que os antigos países PIGS são hoje "a locomotiva da Europa". Recordou também os sucessivos choques económicos dos últimos anos, - pandemia, guerra na Ucrânia e conflito envolvendo o Irão, e explicou que continuam a influenciar as decisões dos bancos centrais.

Segundo o responsável, o Banco de Portugal mantém uma previsão positiva para o crescimento económico nacional, apesar da revisão em alta da inflação: "O mercado de trabalho é forte, a comparar com outros países europeus, e temos procura imobiliária bastante forte", e acrescentou que "a procura recuperou mais depressa que a oferta habitacional disponível", salientando que, apesar da melhoria do licenciamento em 2024, o número de habitações concluídas continua abaixo das necessidades do mercado.

Laporte lembrou ainda que Espanha e Portugal apresentam algumas das taxas de juro hipotecárias mais competitivas da Europa, embora tenha alertado para a incerteza quanto à sua sustentabilidade e para o impacto que um eventual agravamento do contexto geopolítico poderá ter na inflação.

Como síntese, apontou oportunidades sustentadas pelo crescimento económico, pelo mercado de trabalho resiliente e pela procura, mas identificou como principais riscos a evolução da energia, da inflação, da acessibilidade à habitação e da disciplina de crédito.

Especialistas não antecipam descida dos preços

Na mesa-redonda moderada por José Gabriel Quaresma, da CNN Portugal, foi analisado o atual momento do mercado imobiliário.

Pedro Brinca recordou que Portugal "é uma pequena economia aberta" e, por isso, particularmente exposta aos choques internacionais, sobretudo aos preços da energia. Explicou ainda que "há um canal importante que é a gestão de expetativas", capaz de influenciar a inflação.

Ricardo Valente considerou que o crescimento económico acima da média europeia é positivo, mas alertou que a falta de resposta da oferta continua a pressionar os preços: "Este aumento de rendimento tem sido transferido diretamente para o preço, porque não há aumento de oferta. Temos um problema. O crescimento é positivo, mas devíamos acelerar a redução fiscal e ter um Estado que permitisse um choque de oferta."

João Braz afirmou que existem sinais de estabilização na atividade, mas não nos preços: "Há sinais de estabilização no arranque deste ano, o que acaba por ser natural depois de muitos anos de forte procura. O mercado estará a transacionar menos, mas a preços mais elevados." O responsável do idealista acrescentou que "não prevemos que haja uma grande descida de preço nos próximos meses" e que, enquanto a procura estrutural persistir, "dificilmente os preços vão descer."

Pedro Brinca defendeu que a inflação deverá manter-se elevada durante mais tempo, não antecipando reduções significativas das taxas de juro: "Não há uma bala de prata que resolva tudo. As políticas de estímulo da procura são as mais fáceis de passar, mas só estamos a tirar casas a uns para dar as outros, sem aumento de oferta." O economista apontou ainda problemas estruturais como requisitos de construção desadequados, escassez de mão-de-obra e insuficiência de transportes públicos.

Ricardo Valente destacou que Portugal apresenta atualmente um nível de alavancagem financeira saudável, mas lembrou que existe um segmento muito dependente do crédito, nomeadamente os jovens compradores da primeira habitação, prevendo que "o mercado vai ser muito mais seletivo."

Por sua vez, João Braz, reiterou que os preços continuam estáveis nos anúncios publicados, embora os imóveis possam permanecer mais tempo no mercado e exista maior margem para negociação.

Apesar de perspetivas distintas sobre a evolução do mercado, os intervenientes convergiram na ideia de que o principal desafio continua a ser estrutural: enquanto a oferta de habitação não acompanhar a procura, dificilmente haverá uma correção significativa dos preços. A necessidade de aumentar a construção, remover entraves ao licenciamento, qualificar os profissionais e criar condições para um mercado mais equilibrado foi um dos principais consensos que marcou o encerramento da manhã.