Imobiliário comercial

Pandemia reduz em 30% o volume de investimento imobiliário

Ana Tavares |
Pandemia reduz em 30% o volume de investimento imobiliário

A Cushman & Wakefield prevê que o ano feche com 2.800 milhões de euros investido em imobiliário comercial. A confirmar-se, será o terceiro melhor resultado de sempre para o mercado.

Em dezembro de 2019, as estimativas da Cushman & Wakefield apontavam para um volume de transações próximo dos 3.400 milhões, que representaria um novo máximo histórico para o país.

Paulo Sarmento, Partner e diretor de Capital Markets da Cushman & Wakefield, «ao contrário do ocorrido na anterior crise económica, o interesse dos investidores estrangeiros no mercado português manteve-se ao longo do ano. Após uma primeira fase de “esperar para ver”, os principais players do mercado não só reconheceram a boa resposta que o país estava a ter face à pandemia, mas foram também pressionados pelos elevados níveis de liquidez que registavam. A quebra verificada no investimento está perfeitamente em linha com outros países».

No primeiro trimestre deste ano, foram transacionados 1.500 milhões de euros, com o capital estrangeiro a representar 73% do total, e grande impacto dos negócios de grande dimensão. Destaque para a venda do portfólio Sierra Prime (antes da declaração da pandemia) a um consórcio formado pelas seguradoras Allianz e ELO, e a compra por parte da Palm Invest do portfólio dos hotéis Real, representaram em conjunto 70% do volume investido até março de 2020.

Por oposição, o segundo trimestre foi um dos mais baixos da história do investimento imobiliário em Portugal, revelando a maior cautela de muitos investidores em período de confinamento. Segundo a consultora, nesta fase foram vários os ativos retirados do mercado por opção dos vendedores. Entre abril e junho transacionaram-se apenas 141 milhões de euros, na sua totalidade provenientes de capital estrangeiro.

Com a melhoria da situação pandémica no verão, a atividade de investimento retomou gradualmente. Destaque para o fecho da venda do Lagoas Park pela Kildare à Henderson Park, por 421 milhões de euros, um negócio off-market que exclui o tradicional processo estruturado de venda e que é cada vez mais frequente em Portugal, nota a C&W.

A poucos dias do fecho do ano, foram fechados mais de 40 negócios de investimento em Portugal, num volume de 2.600 milhões de euros. Até ao final do mês, poder-se-ão fechar outros negócios no valor de 200 milhões de euros. Se o volume anual atingir os 2.800 milhões estimados, este será um resultado 14% abaixo do ano passado.


Residencial para arrendamento pode captar €500M no próximo ano

Quanto ao próximo ano, a consultora nota que «a atividade de investimento está ainda envolta em alguma incerteza». Paulo Sarmento comenta que «é inevitável reconhecer que a crise pandémica teve um impacto significativo na atividade de investimento imobiliário comercial em Portugal (…). Hoje, o volume de negócios com uma probabilidade muito elevada de fecho no próximo ano totaliza apenas 1.700 milhões de euros, valor que compara com 2.600 na mesma data do ano anterior».

Segundo a C&W, estão em fase de pré-negociação 60 ativos imobiliários, num valor próximo de 2.000 milhões de euros. Estas operações têm datas de fecho previstas entre 2021 e 2022, mas «a tendência crescente dos investidores de optar por negócios off market dificulta o exercício de previsões de mercado, e é muito provável que em 2021 sejamos novamente brindados com negócios inesperados», conclui Paulo Sarmento.

O setor dos escritórios vai «seguramente» dominar a preferência dos investidores em 2021, mas espera-se um novo setor “estrela”, nomeadamente o investimento institucional em residencial para arrendamento, que pode mesmo superar os 500 milhões de euros.

É um dos setores que cada vez mais se encontra no radar dos investidores institucionais. Esta classe de ativos, denominada internacionalmente por Private Rented Sector (PRS), e que consiste em portfólios significativos de unidades residenciais para arrendamento, tem vindo a ganhar um destaque muito significativo à escala europeia, tendo sido em 2020 o segundo setor com maior alocação de capital.

A consultora ressalva que «em Portugal a aposta neste tipo de investimento está ainda a dar os primeiros passos, mas são muitos os promotores e investidores que se estão já a posicionar para concretizar projetos nesta área».