Licenciamentos são hoje o maior desafio dos investimentos imobiliários

Ana Tavares |
Licenciamentos são hoje o maior desafio dos investimentos imobiliários

Esta foi uma das principais conclusões da conferência SIL Investment Pro, que se realizou a 10 de outubro, no âmbito do SIL – Salão Imobiliário de Portugal, coorganizada com a APPII, com o intuito de centrar o debate sobre investimento em Portugal e de trazer «novas caras e novos players ao SIL», afirmou na ocasião Hugo Santos Ferreira, vice-presidente executivo da APPII.

Num debate moderado por António Gil Machado, da VI, sob o mote “Os maiores desafios para os investidores nacionais”, os participantes partilharam que as questões burocráticas são aquelas que mais atrasam os projetos ou as tomadas de decisão.

Jose António Martín Borregón, da Arcano Partners, acredita que «estabilidade da regulamentação é o elemento chave para o investimento em Portugal», e que os maiores desafios se prendem com as “liquidity traps” e o licenciamento.

«O licenciamento pode ser tão penoso que nos obriga a ser cautelosos», afirmou Claude Kandiyoti, da belga Krest RE Investments, uma empresa que está fortemente apostada em criar oferta de habitação para o mercado nacional, com vários projetos de grande dimensão em carteira. Afirma que os sistemas burocráticos «precisam de uma reforma em Portugal», e que «temos de ser conservadores, e olhar com atenção para a subida dos preços».

Pedro Silveira, do Grupo SIL, partilhou que «os problemas que os investidores estrangeiros encontram devem ser os mesmos que os nossos, nomeadamente os licenciamentos».

Também William Tonnard, da Optylon Krea, identifica o licenciamento como o mais evidente obstáculo à atividade da empresa em Portugal, que se dedica essencialmente ao mercado de short term rentals. «A estabilidade é crucial para continuarmos a investir».

Concordando com esta questão e antecipando os debates dos próximos anos, Filipa Abreu Teixeira, da Vanguard Properties, afirmou que «a qualidade dos produtos será muito mais preponderante» num futuro onde haverá «muito mais construção nova». «Portugal foi esquecido durante demasiado tempo. Os fundamentals do mercado mudaram estruturalmente, e isto criou novas oportunidades», afirmou Claude Kandiyoti.

 

Oportunidades estão no segmento médio

Fazendo uma breve contextualização do mercado imobiliário, Ricardo Guimarães, diretor da Confidencial Imobiliário, destacou que a subida dos preços das casas, que se tem vindo a verificar em torno dos 15%, vali agora suavizando, salientando que o mercado não é todo Lisboa e Porto: «é um claro contraste com o resto do país, onde muitas cidades estão ainda abaixo dos valores pré-crise». É nas gamas médias de preços que há atualmente mais margem de progressão.

Por outro lado, salientou que «o mercado está numa nova fase de consolidação, não basta estar vivo para tudo correr bem, mas não estamos de forma nenhuma em contexto de crise. É o tempo de separar o trigo do joio, de fazer bem as contas e de avançar com os projetos com os pés assentes na terra», concluiu.

E numa altura em que os imóveis «estão muito acima da capacidade e do poder de compra das famílias», urge criar nova oferta para os segmentos médios. Ricardo Sousa, CEO da Century 21, destacou na ocasião que as taxas de esforço atuais para compra de casa são de 58% e 68% para comprar e arrendar casa em Lisboa, respetivamente, o que «prova que a capacidade de ajuste das famílias é pouca». E defende que «há uma grande oportunidade de negócio. A procura é consistente e vai continuar a crescer, mas temos de mudar a forma como olhamos para o nosso mercado».

Quanto ao financiamento, e dando a perspetiva da Caixa Geral de Depósitos, Francisco Sottomayor realçou que há que «digerir algumas dores da crise», que marcaram a forma como os bancos olham para o financiamento imobiliário. Mas, e apesar de os bancos demorarem a adaptar-se à realidade do mercado, estão dispostos a emprestar: «olhamos mais para o projeto do que para a qualidade da hipoteca», explicou.

 

“Ainda não vemos sinais de alerta”

Na ocasião, Pedro Silveira referiu que «ainda não vemos sinais de alerta no mercado», até porque «os bancos são agora muito mais cautelosos, por isso acho que não vamos ter um problema de excesso de oferta. Mas a história diz-nos que isso um dia vai acontecer, eventualmente», e identifica como seguro um preço residencial por metro quadrado até aos 4.000 euros.

Também Luís Gamboa, da VIC Properties, considera que, a manterem-se os tempos atuais de licenciamento e a atual procura, «não teremos problemas de excesso de stock», admitindo também que preços acima dos 5.000 ou 6.000 por metro quadrado terão mais risco.

 

Boas notícias para o imobiliário comercial

As perspetivas são também positivas no que diz respeito ao imobiliário comercial. Nelson Rego, da Prime Yield, destacou na sua apresentação que Portugal continua a ser um país muito competitivo, nomeadamente nos escritórios, sendo a cidade europeia onde mais metros quadrados é possível arrendar por um mesmo valor de 3.000 euros, a título de exemplo.

Por outro lado, há espaço para desenvolver novos projetos logísticos, o comércio de rua é mais atrativo e há também mais interesse na hotelaria. São «muito boas notícias em relação ao investimento, que deve superar os 1.000 milhões de euros (só neste segmento) até ao final do ano».

 

O SIL Investment Pro terminou ainda com um terceiro painel sob o mote “Novas formas de turismo”.