O investimento imobiliário em Portugal chegou aos 1.420 milhões de euros no primeiro semestre deste ano, um aumento de 11% face a igual período do ano passado. O primeiro trimestre do ano foi particularmente forte, com 930 milhões de euros investidos (490 no segundo trimestre).
As contas da JLL, partilhadas no seu relatório Market Dynamics, confirmam a resiliência do mercado português, numa altura em que o país se mantém entre os 10 destinos europeus preferidos para o investimento imobiliário em 2026 (segundo um inquérito da INREV).
Segundo a consultora, a forte projeção internacional coexiste com um maior protagonismo dos investidores domésticos, num mercado hoje mais equilibrado, onde o capital estrangeiro representou 65% das transações e o capital nacional os restantes 35%.
Retalho e hotelaria têm a maior fatia do investimento
No período em análise, o retalho e a hotelaria foram os mais representativos, concentrando, em conjunto, cerca de dois terços do volume total transacionado. Destacam-se pelo seu forte desempenho operacional, apesar do enquadramento macroeconómico mais desafiante. No caso do retalho, as vendas subiram 5% em termos homólogos até maio, e a hotelaria registou um aumento de 5,7% nos seus proveitos e de 2,4% no número de hóspedes, o que reforça o interesse dos investidores neste tipo de ativos.
O retalho representou, assim, 32% do investimento, muito graças à transação de um portfólio de centros comerciais, transações de retail parks ou pela venda do Aqua Portimão.
Já a hotelaria concentrou 43% do total investido, com destaque para transações como a venda do resort Ritz-Carlton Penha Longa ou a aquisição do Hotel Corinthia Lisbon por cerca de 150 milhões de euros.
Pelo contrário, a logística e os escritórios ressentiram-se mais com a evolução da conjuntura económica, marcada pelas alterações da política monetária, pela inflação e pela revisão em baixa das perspetivas de crescimento económico. A atividade ocupacional foi relativamente moderada, com 66.900 m² colocados no mercado de Lisboa, 15.850 m² no Porto e 199.100 m² no mercado logístico a nível nacional. A JLL perspetiva uma recuperação gradual destas atividades ao longo do segundo semestre, sendo que as rendas mantêm uma trajetória positiva nos dois segmentos, resultado da falta de oferta em termos de volume ou de adequação às necessidades da procura.
O setor logístico representou 13% do capital investido, destacando-se a venda de um portfólio logístico por 90 milhões de euros. Os escritórios representaram apenas 6% do total. Com destaque para a venda do edifício Office Cais ou de um imóvel na rua Barata Salgueiro, em Lisboa. Os restantes setores, incluindo saúde e residencial, correspondem aos remanescentes 7% do volume total de transações.
Carlos Cardoso, CEO da JLL Portugal, explica que “os resultados do primeiro semestre reforçam a capacidade do mercado imobiliário português para continuar a atrair capital num contexto internacional marcado por maior incerteza. Portugal mantém fundamentos sólidos, uma economia estável e uma proposta de valor competitiva à escala europeia, fatores que continuam a sustentar a confiança dos investidores nacionais e internacionais”.
O responsável acrescenta que “a liderança da hotelaria e do retalho demonstra que os investidores continuam a privilegiar setores suportados por tendências estruturais robustas, como o turismo, o consumo e a atratividade internacional do país. Paralelamente, estamos a observar uma recuperação gradual do interesse por outros segmentos, o que nos permite encarar a segunda metade do ano com confiança”.
Andreia Almeida, Head of Research da JLL, enfatiza a “forte capacidade destes setores (hotelaria e retalho) para gerar desempenho operacional e captar capital num ambiente mais desafiante. Em simultâneo, observamos um crescente interesse por classes de ativos alternativos e por estratégias de criação de valor, incluindo projetos de reconversão que respondem às atuais necessidades do mercado”.
E completa que “o posicionamento de Portugal entre os mercados europeus mais atrativos para investimento continua a ser um importante indicador de confiança. Este reconhecimento deverá contribuir para manter um fluxo relevante de capital internacional, num momento em que o mercado beneficia também de uma maior participação de investidores domésticos”.
Perspetivas são positivas para o segundo semestre, e estabilidade económica pode ajudar
Carlos Cardoso afirma que “as perspetivas para a segunda metade de 2026 permanecem favoráveis. O mercado continua a beneficiar de fundamentos sólidos, de uma procura diversificada e de uma crescente atenção a segmentos com elevado potencial de crescimento, como os data centers. Nos mercados ocupacionais, a procura por ativos de qualidade, eficientes e bem localizados continua a sustentar a valorização do produto prime”.
Andreia Almeida antecipa “uma recuperação gradual da procura em Lisboa e no Porto, à medida que aumenta a confiança dos ocupantes e o enquadramento económico ganha maior estabilidade” no mercado de escritórios. Na logística, “os fundamentos permanecem sólidos e a escassez estrutural de oferta moderna deverá continuar a suportar níveis de renda elevados”.
No retalho e na hotelaria, “o foco desloca-se cada vez mais para a qualidade dos ativos, a experiência do consumidor e a diferenciação da oferta. Já no residencial, o desequilíbrio entre oferta e procura continuará a exercer pressão sobre os preços, embora as medidas orientadas para o aumento da produção habitacional possam começar a produzir efeitos progressivos no mercado”.
Seja como for, “Portugal continua a afirmar-se como um destino imobiliário de referência na Europa, combinando resiliência, competitividade e capacidade de atração de capital. Os indicadores observados no primeiro semestre sustentam uma perspetiva positiva para o conjunto de 2026, tanto ao nível do investimento como da atividade ocupacional”, completa Carlos Cardoso.