C21: Habitação precisa de maior adaptação às exigências modernas

Ana Tavares |
C21: Habitação precisa de maior adaptação às exigências modernas

Esta foi uma das principais conclusões do evento de apresentação do relatório “Observatório: O imobiliário em Portugal”, da Century 21, que decorreu esta semana em Lisboa, e que tem um foco especial nas necessidades da procura jovem.

Segundo este relatório, 78,1% dos jovens em Portugal entre os 18 e os 34 anos não têm recursos económicos suficientes para viver onde gostariam. O seu grau de dependência aumenta, e não encontram resposta no mercado adequada às suas necessidades.

«Hoje há um gap muito grande entre a oferta e a procura», depois de uma paragem da construção e da «mudança da escala de Lisboa», salienta Ricardo Sousa, CEO da Century 21, que acredita que «não há alternativas, e muitos compram por falta de opção».

O responsável garante que «as socimis espanholas olham para o mercado de arrendamento em Portugal, mas temos muitos investidores nacionais que ainda apostam só nas unidades de maior dimensão», que estão fora das possibilidades deste grupo. Por outro lado, «os investidores olham para o luxo ou para o alojamento local, mas vemos agora que muitos deles querem voltar ao arrendamento tradicional, é um período de transição pelo qual vamos ter de passar», alerta.

Miguel de Castro Neto, professor na Nova IMS, salientou a «tendência para passarmos a ser utilizadores» também do imobiliário. Procuram-se pequenas unidades, no «caminho de densificação das cidades, ao contrário dos últimos anos». Este especialista também destacou a importância dos instrumentos de gestão territorial e da tecnologia, que hoje permite «ter ao nosso dispor dados dinâmicos», ao invés de ter como base os censos de 2011, desajustados da atualidade.

 

Co-living é só uma das soluções para dinamizar o arrendamento

Williams Johnson Mota, CEO da B-Hive Living e embaixador da Co-Liv em Portugal, afirmou neste evento que «o co-living é uma necessidade, uma «experiência habitacional diferente», nomeadamente através de áreas privadas mais pequenas e áreas comuns mais espaçosas, e que promete ser uma alternativa em conta. «É uma reação ao grande crescimento urbano».

Portugal já tem «muitos investidores interessados a fazer estudos de viabilidade económica. Há procura, mas um dos entraves é a perceção do risco», explica, nomeadamente a ausência de um licenciamento específico, a necessidade de atualização das normas urbanísticas (que tornam «impossível construir atualmente um co-living de raiz»), ou a política de arrendamento.

 

Governo vê “com bons olhos” a flexibilidade da habitação

«Vemos com bons olhos as soluções de flexibilidade da ocupação da habitação», afirmou a secretária de Estado da Habitação, Ana Pinho, no encerramento do evento, exemplificando que «o regime de casa própria é extremamente rígido».

A governante lembrou que o programa 1º Direito pode incorporar co-living, ou que o Programa de Arrendamento Acessível pode incluir o arrendamento de quartos. O recentemente aprovado Direito Real de Habitação Duradoura pretende ser outro modelo alternativo.

«A Nova Geração de Políticas de Habitação tem várias inovações que pretendem adaptar-se às atuais necessidades do mercado, garantindo que o direito à habitação é para todos. Temos uma aposta muito clara no apoio e nos incentivos à ocupação alternativa da habitação», garante Ana Pinho.

 

“Precisamos de industrializar a construção”

«Não podemos continuar a ter a construção que temos agora», defende Ricardo Sousa, que acredita que o mercado precisa «de uma aposta na industrialização da construção. O tema tem de ser debatido, e a tecnologia já está disponível. Precisamos, por exemplo, de mais espaço em altura em zonas onde faça sentido, e ainda de processos administrativos mais céleres», afirma.

Este responsável acredita que «2020 vai ser um ano de ajustes e de dores de crescimento, bem como de estabilização de preços, porque os rendimentos não acompanham o mercado». Acredita que vão aumentar os preços da construção nova, e abrandar no caso dos fogos usados, havendo «uma maior consciencialização do valor real dos imóveis por parte dos proprietários».