A Vida Imobiliária organizou, na última quarta-feira, em Lisboa, um Pequeno-Almoço Conferência dedicado às perspetivas do mercado para 2026, em parceria com a Morais Leitão, Dils e Victória Seguros, reunindo cerca de 40 profissionais do setor para partilharem a sua leitura do ano que agora começa. Como é habitual, os participantes foram convidados a indicar uma palavra que melhor descrevesse o seu sentimento em relação à sua atividade profissional. “Instabilidade” foi o termo mais referido, embora tenham surgido também conceitos como “flexibilidade”, “resiliência”, “oportunidade”, “consolidação”, “afirmação”, “industrialização” e “imprevisibilidade”. O mercado é heterogéneo e deve ser analisado pelos riscos e oportunidades Ricardo Guimarães, diretor da Confidencial Imobiliário, começou por sublinhar que o mercado imobiliário português é “heterogéneo e deve ser sempre olhado numa perspetiva de riscos e oportunidades”. No plano agregado, destacou que 2025 ficou marcado por uma grande subida dos preços da habitação. “A principal nota do ano passado foi uma subida muito intensa dos preços, na ordem dos 24%”, referiu. Contudo, “foi também um ano com variações significativas no ritmo de vendas” que, ainda assim, registaram um crescimento global de 9%, indicou. Para o responsável, o mercado está próximo de atingir “a capacidade física de transacionar”, e o “futuro será, essencialmente, uma continuação deste percurso”. A escassez de oferta continua a ser um dos principais constrangimentos: “existe um fosso crescente entre a obra anunciada e a obra que efetivamente chega ao mercado construída”, alertou, tendo também destacado um padrão territorial claro: “nos mercados mais caros, a obra concluída está a sair em maior volume do que nos mercados mais baratos”. “Se não fosse a incerteza externa, diria que 2026 seria um ano excelente” João Duque, economista e professor catedrático do ISEG, apresentou uma leitura globalmente positiva: “2026 podia ser um ano muito bom. As expectativas económicas são favoráveis e as previsões que estão feitas são bastante consistentes”, afirmou. Ainda assim, deixou um alerta para os riscos externos: “se não fosse uma variável externa – nomeadamente a instabilidade política internacional – diria que o ano seria particularmente interessante para Portugal”. Entre os indicadores económicos, destacou a coerência do crescimento: “os fatores que alimentam o crescimento geral são harmónicos e, apesar das importações crescerem menos do que as exportações, tudo aponta para uma balança corrente positiva”. Os mercados de juro mantêm-se relativamente estáveis, embora com pressão no longo prazo. “As taxas de longo prazo subiram porque a política do Banco Central Europeu se alterou. A ideia é ir secando a liquidez de longo prazo, pelo que essa pressão deverá continuar”. Também do ponto de vista energético não são esperadas grandes alterações. “Não se anteveem mudanças significativas neste domínio”, referiu, concluindo que, apesar dos fatores já enunciados, será um excelente ano. Um ano de incerteza, mas também de consolidação No final do debate o sentimento dominante era evidente, com a maioria dos participantes a apontar para 2026 como um ano de incerteza, instabilidade e desafios, mas também de consolidação e resiliência e os resultados do inquérito realizado pela Vida Imobiliária a confirmar que para a maioria das pessoas, 2026 será melhor do que 2025. Foram também identificadas duas grandes preocupações para este ano. A primeira prende-se com as mudanças na geopolítica e o seu impacto no setor imobiliário, nomeadamente os riscos específicos para Portugal e as estratégias de investimento do capital institucional. A segunda está relacionada com o impacto do pacote de medidas aprovadas para a habitação, em particular o IVA na construção, a renda acessível, o Simplex e a industrialização do setor. Ritmo de subida de preços traz preocupações Ao longo da sessão, vários participantes chamaram a atenção para as dificuldades de acessibilidade na habitação, lembrando que o intenso ritmo de subida de preços poderá vir a tornar-se insustentável: “a evolução dos preços da habitação está a ser cada vez mais rápida do que a evolução dos rendimentos” dos portugueses, notou o CEO da Century 21 Portugal, Ricardo Sousa, alertando que “existe um abrandamento no número de transações e na procura internacional, especialmente do mercado americano”. E, a seu ver, “2026 será, sobretudo, um ano de ajuste”. Patrícia Barão, presidente da APEMIP e Head of Residential da Dils, disse que “2025 foi um ano em que se vendeu muito bem”, alertando, no entanto, que “em 2026 vamos estar muito dependentes dos novos projetos que consigam chegar ao mercado”. Neste cenário, alguns promotores estão a ajustar estratégias: "estamos a olhar para projetos de maior escala, menos premium e mais acessíveis à classe média e média-alta”, indicou o administrador da Habitat Invest, Duarte Soares Franco, acrescentando que “a aposta nas periferias vai continuar”. A aplicação do IVA a 6% na construção poderá ser, segundo referiram, “um reforço importante para viabilizar este tipo de projetos”. No caso da Vogue Homes, o foco continuará a ser no segmento alto, mas “estamos a divergir para outros mercados, para além do português”, revelou o administrador, Joaquim Lico.