Portugal encerrou 2025 com um stock de crédito em incumprimento (NPL) de €4.100 milhões, confirmando uma década consecutiva de desalavancagem do sistema financeiro nacional. Os dados, analisados pela Prime Yield com base na informação da European Banking Authority (EBA), colocam o país entre os mercados europeus mais eficazes na redução do crédito malparado.
A evolução é evidente no rácio de NPL — indicador que mede o peso do incumprimento no total do crédito concedido — que caiu de 19,6% em 2015 para apenas 2,0% em 2025. Durante o mesmo período, o volume total de crédito manteve-se relativamente estável, passando de €215.200 milhões para €208.700 milhões.
O desempenho registado em 2025 reforça esta trajetória de ajustamento. Ao longo do último ano, o crédito malparado diminuiu €500 milhões, recuando de €4.600 milhões no final de 2024 para €4.100 milhões no final de 2025, o que representa uma queda anual de 11%. Em linha com esta tendência, o rácio de NPL desceu de 2,3% para 2,0%, aproximando-se da média europeia de 1,8%.
Este progresso contrasta com a realidade observada há uma década, quando Portugal apresentava um dos níveis mais elevados de incumprimento da Europa. Em 2015, o país concentrava cerca de 4% do total de NPL europeu. Em 2025, mantém essa quota no crédito, mas reduziu o seu peso no malparado europeu para apenas 1%.
A redução do risco ocorreu num contexto de resiliência económica. Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,9%, acima da média europeia, sendo que as previsões apontam para um crescimento de 2,3% em 2026. Paralelamente, o dinamismo do mercado imobiliário contribuiu para reforçar a qualidade dos colaterais: as vendas residenciais aumentaram 8,6%, os preços subiram 17,6% e o crédito à habitação registou um crescimento de 34%.
Segundo Francisco Virgolino, Managing Director da Prime Yield, “Portugal protagonizou uma transformação estrutural no tratamento do crédito malparado, passando de um dos mercados mais pressionados da Europa para um dos mais eficientes”. O responsável destaca ainda que esta evolução resulta não só da atuação dos bancos, mas também da crescente maturidade dos investidores e servicers, bem como de um enquadramento regulatório mais robusto.
De acordo com o estudo “Keep an Eye on the NPL & REO Markets”, o mercado de transação de carteiras de crédito malparado encontra-se atualmente em fase de reposicionamento. Em 2025, o volume de vendas terá rondado os €2.000 milhões, refletindo uma recuperação face a 2023 e uma normalização após um 2024 marcado por operações de grande escala. Esta nova fase é caracterizada por maior concentração de operadores, aumento da atividade no mercado secundário e transações mais seletivas e de menor dimensão. A maioria das carteiras colocadas à venda em 2025 não ultrapassou os €200 milhões.
O setor tem também assistido a movimentos de consolidação, como a aquisição da Hipoges pela britânica Pollen Street Capital, através da portuguesa Finsolutia, dando origem a um operador com €55 mil milhões em ativos.
Em termos legislativos, 2025 ficou ainda marcado pela entrada em vigor do novo Quadro Legal para a Cessão e Gestão de Créditos Bancários.
Quanto a 2026, a Prime Yield antecipa a continuação destas tendências, “com um mercado mais seletivo, maior relevância do segmento secundário e adaptação progressiva ao novo enquadramento legal para a cessão e gestão de créditos, em vigor desde dezembro”. refere Francisco Virgolino, acrescentando: “a evolução verificada em 2025 comprova que Portugal se tornou um mercado muito eficiente na redução de NPL, enquanto mantém níveis de crescimento acima da média europeia. Esta dualidade torna o país particularmente atrativo para operações complexas e especializadas, num momento em que o setor enfrenta consolidação e transformação regulatória”.