Portugal nunca esteve tão aberto ao capital privado

Portuguese Investment Conference, MIPIM 2026
Portuguese Investment Conference, MIPIM 2026

O crescimento tem sido forte e é real, tornando o país uma presença constante no radar dos investidores, que têm canalizado milhares de milhões de euros em capital privado para Portugal por via do imobiliário. Mas, e ainda que continuem a existir grandes oportunidades; é preciso assegurar a continuidade desta posição cimeira e, ao mesmo tempo, continuar a dar gás ao crescimento; cabendo às autarquias um papel central na resolução destes desafios.

Esta quarta-feira ao final da tarde, a Portuguese Investment Conference fechou com chave de ouro a programação do MIPIM, num momento em que autarcas e investidores alinharam estratégias para continuar a canalizar o investimento para um novo ciclo urbano. Organizada pela Iberian Property e pela APPII, o evento contou com mais de uma centena de profissionais na audiência.

A abrir as hostes, para o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, “Baixa de Lisboa é um exemplo claro do efeito transformador do investimento imobiliário, e hoje quando dizem que aquela zona está totalmente transformada, eu respondo ainda bem! Ainda bem que deixou de ser uma zona deserta, abandonada e sem vida... e se hoje toda aquela área é vibrante, devemo-lo aos investidores imobiliários que aceitaram o desafio de ali apostar o seu capital”. Frisando que "materializar a nossa visão de futuro para Lisboa, implica conseguir conciliar estratégias públicas e privadas, de todos os que nela investem, vivem e a visitam”, Moedas lembrou que este  sucesso recente da cidade também coloca novos desafios. “Quando uma cidade como Lisboa atinge uma posição cimeira, de destaque internacional, o mais difícil é manter esse posicionamento e continuar a crescer”. Neste contexto, sublinhou a importância de equilibrar a dinâmica económica com a dimensão e a coesão social, pois, só assim se podem evitar as pressões decorrentes do desenvolvimento urbano “e assegurar que todos os que nos chegam continuam a sentir-se bem, acolhidos e seguros”.

A segurança, a qualidade de vida e até a capacidade de rápida integração dos residentes estrangeiros continuam a ser, para Moedas, alguns dos grandes fatores diferenciadores que sustentam a continuação do interesse do investimento internacional em Lisboa. Contudo, há desafios que também persistem, reconhece, elencado a excessiva burocracia e a complexidade do enquadramento urbanístico e dos processos de licenciamento como os principais constrangimentos ao investimento imobiliário. “É preciso simplificar as regras e conferir maior clareza nos instrumentos de planeamento, pois em Portugal as leis neste campo são tão complexas que a até a IA ficaria confusa”, afirmou, defendendo que esta tem de ser uma prioridade para reforçar a competitividade do mercado.

 

Desenvolvimento das cidades tem de ser feito em parceria

Hoje, o interesse dos investidores imobiliários já não se restringe aos territórios de Lisboa e do Porto, e as oportunidades multiplicam-se por todo o país. É o caso de Coimbra, que se apresentou no MIPIM como o terceiro grande polo urbano do país, beneficiando de um forte ecossistema académico e de inovação, bem como de uma crescente internacionalização da sua comunidade estudantil. A futura linha de alta velocidade, com paragem na cidade, deverá reforçar ainda mais esse posicionamento, realçou a presidente do município, Ana Abrunhosa. “Estamos a planear uma verdadeira nova cidade para toda essa zona; e convidámos o arquitecto Jean Busquets para, em colaboração connosco, pensar no que será o futuro de toda aquela área. Queremos criar um masterplan claro, que garanta previsibilidade e que funcione; pois, se queremos construir cidades com os investidores privados, obviamente que temos de ter um conceito claro e previamente debatido publicamente daquilo que essa cidade deve ser”,  adiantou a autarca. Classificando esta nova mancha de expansão como uma “grande oportunidade de futuro” em Coimbra, Ana Abrunhosa explicou que em causa “estão terrenos públicos que queremos que sejam desenvolvidos pelos privados, em parceria connosco, criando mais habitação, hotelaria, comércio e serviços. Queremos ter também um corredor de metrobus que ligue toda aquela zona de expansão aos municípios vizinhos e ao centro de Coimbra, porque sabemos que em havendo mobilidade, teremos também maior liberdade para escolher onde queremos residir e trabalhar”.

Destacando a crescente atratividade do seu território para empresas e investimento produtivo, já o presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Fernando Paulo Ferreira, apontou a criação de nova oferta habitacional - em especial no segmento acessível no formato built-to-rent - e projetos de uso misto como prioridades estratégica para o município. “Temos muitas empresas novas a instalar-se em Vila Franca de Xira, e agora precisamos de oferecer as condições necessários para as pessoas também ali se fixarem. Por isso, o desenvolvimento de projetos de uso misto é fundamental e, é aí, que temos de trabalhar em estreita colaboração com os investidores”, afirma. Mas, para facilitar esta dinâmica, “o nosso país precisa de simplificar a relação entre os setores público e privado, especialmente no que diz respeito à habitação”; até porque, “para atrair investimento privado precisamos essencialmente de duas coisas: confiança e velocidade”, sintetizou.

 

Mercado está mais líquido, mas não pode acomodar-se ao sucesso

Do lado dos investidores, a perceção é de que o mercado português registou uma transformação estrutural na última década. “Quando entrámos em Portugal, em 2013, praticamente não existia capital institucional no país. Hoje o cenário é completamente diferente”, lembrou Claude Kandiyoti, CEO da Krest Real Estate Investments, que atualmente detém um portfólio em Portugal avaliado em mais de 1.500 milhões de euros, com presença em diferentes segmentos e zonas do país.

Se no período pós-crise financeira o país enfrentava escassez de capital e financiamento, hoje o mercado conta com investidores institucionais globais, fundos de crédito e um sistema bancário mais robusto, criando condições para operações de maior dimensão e maior sofisticação”, acrescentou o CEO da VIC Properties, João Cabaça. Embora diferentes, as oportunidades continuam a abundar, ou não exibisse o país  um dos maiores potenciais de regeneração urbana na Europa. “O tecido urbano português ainda oferece oportunidades de intervenção em grande escala que já não encontramos em muitas cidades europeias”, considera este responsável.

Na leitura de Pedro Coelho, CEO da Square AM, para os investidores, este posicionamento crescente de Portugal como destino de investimento “resulta da conjugação de vários fatores estruturais: estabilidade macroeconómica, dinâmica demográfica, mobilidade internacional e qualidade de vida. O capital segue sempre as pessoas e as empresas”, resumiu.

Apesar do momento positivo, os intervenientes deixaram um alerta comum: “Portugal não pode acomodar-se ao sucesso recente”, como afirmou João Cabaça; sendo unânime entre os presentes que a escassez de nova oferta habitacional, a complexidade regulatória e os tempos de licenciamento continuam a ser desafios estruturais que condicionam a capacidade de resposta do mercado.