O setor imobiliário está otimista, apesar de operar num quadro de maior exigência, com decisões de compra mais ponderadas e uma pressão crescente sobre a capacidade dos promotores para criar produto adequado às necessidades do país. Esta foi uma das principais conclusões do encontro que a WIRE Portugal organizou em Lisboa.
O evento “Under Pressure” decorreu a 28 de outubro, em parceria com a Abreu Advogados e com o apoio da iad Real Estate, num momento marcado pela escassez de habitação. A WIRE Portugal reuniu vários profissionais do setor para debater os desafios e as oportunidades de um mercado com pouco produto disponível para os segmentos médio e baixo.
Este cenário serviu de mote a uma mesa-redonda que juntou Alfredo Allen Valente, vice-presidente da iad Real Estate, Fernando Vasco Costa, CEO da Vizta, Benedita César Machado, em representação da From: / Arrow Global, e Márcia Oliveira, Head of Sales & Marketing da Krest, com moderação de Patrícia Viana, da Abreu Advogados. Apesar das diferentes perspetivas apresentadas, o debate evidenciou uma realidade transversal: os clientes estão hoje mais informados e exigentes, comparam mais alternativas e levam mais tempo a decidir. Esta realidade obriga os agentes do setor a serem mais criteriosos na definição do produto, da localização, do preço e do timing de entrada no mercado.
A necessidade de previsibilidade foi um dos pontos mais consensuais. Sobre a possibilidade de aumentar a oferta de habitação em Portugal, Fernando Vasco Costa referiu que “temos informações de vários investidores que querem investir em Portugal. O IVA a 6% foi uma medida bem-intencionada, mas na prática tem sido difícil de adotar pela complexidade que traz em termos processuais”.
Já Benedita César Machado destacou o contexto internacional e a maior volatilidade global: “Neste contexto, o valor da segurança ganha peso e, aí, Portugal fica muitíssimo bem na fotografia. Mas isso já não chega”.
Alfredo Allen Valente alertou que “o aumento das taxas de juro aliado ao aumento dos preços do imobiliário constituem dois fatores que impactam diretamente a tesouraria do comprador de primeira habitação”, sublinhando que, a par da subida dos preços, as taxas de juro representam mais um bloqueio no acesso dos portugueses ao mercado.
Em paralelo, a complexidade dos processos de licenciamento, as diferentes interpretações e práticas entre municípios e a incerteza quanto à evolução das regras foram identificadas como fatores que dificultam a avaliação do risco, dos prazos e da viabilidade económica dos projetos.
Márcia Oliveira defendeu processos menos burocráticos, de forma a reduzir a complexidade para o promotor e a acelerar a entrada de nova oferta no mercado: “no nosso papel de promotor, chegamos a ter contratos com cláusulas abertas pois com as alterações constantes ao quadro regulatório é expectável que tenhamos de alterar condições ao longo do processo de aquisição, torna-se tudo muito complexo e instável”.
Os participantes concordaram que o investimento não exige ausência de regulação, mas sim regras claras, estáveis e previsíveis. O debate destacou ainda o papel que os setores público e privado podem desempenhar na criação de nova oferta habitacional, nomeadamente através da disponibilização de terrenos e da criação de condições que permitam desenvolver projetos economicamente viáveis e acessíveis aos portugueses.
