Escritórios dinamizados por “uma alteração estrutural” da procura

Ana Tavares |
Escritórios dinamizados por “uma alteração estrutural” da procura

Este foi um dos principais pontos discutidos durante o mais recente Pequeno Almoço – Conferência Vida Imobiliária/Cushman & Wakefield, que decorreu no InterContinental Lisbon, e que reuniu vários players deste segmento de mercado para refletir sobre este contexto.

As palavras são de João Cristina, da Merlin Properties, que destaca que o take up médio do mercado de Lisboa subiu para os 700 a 800 m², e considera que esta é «uma alteração estrutural do lado da procura. Tem a ver com a formação da mão-de-obra em Portugal e com o baixo custo laboral do nosso país. Portugal sai na linha da frente em comparação com outros países europeus e este é um fenómeno que vai continuar, apesar de a oferta não estar a acompanhar».

Tiago Violas, do grupo Violas Ferreira, também atesta que o grande driver do mercado «tem a ver com os talentos», nomeadamente no Porto, onde o grupo está mais presente: «o Porto tem muitas universidades, e as empresas internacionais detetaram isso. São, agora, precisos espaços de qualidade no Porto, onde não havia escritórios com mais de 1.500 m² por piso nem escritórios modernos».

Já Ricardo Valente, da Imopolis, salienta que o mercado «não tem historial de pré-arrendamentos, a nossa realidade mudou». E acredita que o mercado «está numa fase muito aliciante». Do lado da Imopolis, assegura que «estamos muito ativos e esperamos concretizar novas operações rapidamente». Também Sérgio Meireles, da Fundger, acredita que «estamos a viver um momento muito interessante, e estamos no bom caminho».

Eric van Leuven, da C&W, afirma que «estamos com um dinamismo muito grande na ocupação, muito investimento, e é bom sentir este otimismo». Carlos Oliveira, da C&W, testemunha que «existe uma clara falta de espaço de qualidade e dimensão, isto faz com que quem precisa de muita área rapidamente tenha muitas dificuldades».

 

Novos ocupantes “atípicos”

Do lado dos ocupantes, estiveram presentes neste pequeno almoço empresas como a Fidelidade, representada por Miguel Santana, que está a encaminhar o seu projeto de 140.000 m² de escritórios nos terrenos da antiga Feira Popular, em Lisboa, 40.000 só para a seguradora e 100.000 a comercializar de forma especulativa. Demonstrando a grande dinâmica da procura, o responsável garante que «de acordo com os contactos que mantemos, estamos para lá de overbooking».

Por outro lado, a Ageas, representada por Caio Antunes, prepara-se para ocupar 8.000 m² no ICON Offices, no Porto, e tem em desenvolvimento um outro projeto no Parque das Nações, em Lisboa, onde vai concentrar operações. João Hormigo, da EDP, explicou que a empresa está a preparar a sua nova sede de mais de 20.000 m² junto ao atual edifício da avenida 24 de Julho, em Lisboa. Todos eles são exemplo de um novo tipo de ocupantes «um pouco atípicos, porque são donos do seu próprio espaço», comenta Carlos Oliveira, da C&W.

 

“Um bom edifício de escritórios é semelhante a um hotel”

Os novos edifícios de escritórios não vão ser iguais aos do passado. Terão maior foco no bem-estar dos colaboradores e na otimização do espaço, e grande preocupação com a retenção de talento.

«Há novos investidores internacionais que chegam a Portugal para construir novos edifícios, isso quer dizer que temos tudo o que é preciso», garante Margarida Caldeira, da Broadway Malyan, que acredita que «hoje, um bom edifício de escritórios é muito semelhante a um hotel». A tendência do open space está para ficar, mas «com tudo o que é preciso».

O facility management pode ter aqui um papel fundamental enquanto área «feita para dar suporte», explica Miguel Agostinho, da APFM. No entanto, «há poucas métricas e metas definidas, e temos ainda dificuldade de acesso ao nível da decisão», aponta. «Precisamos dos dados e que os ocupantes partilhem a sua informação».

 

Falta de mão-de-obra pode atrasar os novos projetos

Até chegar ao mercado, a nova oferta de escritórios vai ter de superar o desafio da construção, numa altura em que «temos muita falta de mão-de-obra e poucos técnicos qualificados», lembrou João Hormigo. «A nova oferta de escritórios é difícil de desenvolver, porque não há recursos intermédios». E apela a que «se aproveite a dinâmica da procura para termos qualidade e celeridade do lado da oferta».  

As questões de licenciamento também podem atrasar o processo, mas Margarida Caldeira lembra que não é um problema novo «há muitos anos que falamos nesta questão. Mantem-se, mas a comunicação é hoje mais fácil».