Ana Tavares
2016-06-14
Desintermediação é tendência de futuro do imobiliário
Nos próximos anos, deverá assistir-se a uma crescente desintermediação nos vários setores do imobiliário. No mínimo, esta será diferente, e terá de acrescentar valor aos negócios, acreditam os profissionais do setor.

A ideia é partilhada pelos intervenientes do último Pequeno Almoço Conferência da Vida Imobiliária, organizado em conjunto com a C&W nesta 3ª feira, que se reuniram para debater as principais tendências dos próximos anos do imobiliário português, no contexto do aniversário de 20 anos desta publicação.

Eric van Leuven, da C&W, acredita que a intermediação «deverá acabar. Tem de haver um valor acrescentado mais do que uma base de dados», numa altura em que «o conceito de tempo é muito diferente de há 25 anos atrás», dando como exemplo o retalho, onde as lojas físicas vão sendo cada vez menos necessárias em muitos casos. Já Rafael Sousa, da Sonae Sierra, acredita que se espera «desformatação e reformatação depois da destruição de valor». Exemplo disso é Yoochai, empresa startup representada no encontro por Christina Lock, que aluga espaços comerciais numa lógica semelhante ao Airbnb – espaços que estão desocupados, ou, por exemplo, entre contratos. Explica que a ideia é «fazer um ‘facelift’ do imobiliário comercial».

A existência de novas oportunidades de negócio é indiscutível, nomeadamente no turismo. Para Eduardo Abreu, da Neoturis, a plataforma Booking já se trata de uma nova intermediação: «ainda ninguém fez as contas de quanto é que permite poupar ou não em equipas de marketing», já que esta plataforma cobra percentagens de 30% a 40%. A importância das linhas lowcost foi também um ponto destacado, principalmente enquanto boost da atividade no nosso país nos últimos anos, que já levou a um grande crescimento da atividade, apesar de «o preço médio praticado ainda estar aquém do que podia estar». Já em relação aos novos formatos de alojamento como os hostels ou o Airbnb, o responsável acredita que «tal como qualquer segmento, deverão estabilizar. Os bons ficarão, mas será difícil ter menos de 10% a 15% da oferta neste tipo de alojamento».

Gilberto Jordan, da ULI e da Planbelas, por seu lado, lembrou a questão das marcas hoteleiras dos grandes grupos, que cada vez criam mais insígnias para determinado target. Acredita que «as pessoas procuram um standard, querem reconhecer um trabalho de marca. Vamos ver como as grandes cadeias vão reagir a isto», numa altura em que, por vezes, «não se percebe bem o que cada marca oferece», rematou Eduardo Abreu.

Henrique Polignac de Barros, da APPII, realçou a mudança que se assiste na atividade da promoção imobiliária: «ao fim de 7 ou 8 anos, começamos a ver a luz ao fundo do túnel. Começam a aparecer muitos promotores quando o negócio corre bem, e quando as coisas começam a correr mal ficam os realmente bons» e os que «não se endividarem demais». Seja como for, acredita que «a tecnologia é fundamental».

Também do lado da promoção, Pedro Silveira, do Grupo SIL, lembrou do problema da banca, que considera «um problema estrutural. Isso decide muito, e tem sido contrabalançado com as compras dos estrangeiros». Agora, e nos próximos anos, considera que competitividade e adaptabilidade são palavras de ordem.

A agroindústria, o turismo de saúde, o ensino ou a reformulação da habitação são as oportunidades chave apontadas por Almeida Guerra, da Rockbuilding, para quem «temos de resolver os traumas para chegar a este futuro, nomeadamente a questão dos bancos, que têm sido o grande concorrente dos promotores».

Para Manuel Puerta Costa, da BPI SGFII, os problemas da crise «ainda não desapareceram», e nesse contexto há que olhar para a economia do sol (turismo e lazer) nos próximos anos, tendo em conta a questão demográfica. Para si, uma coisa é certa: «o que não haverá é espaço para quem estiver preso ao passado».

Francisco Horta e Costa, da CBRE, também salientou a questão da tecnologia e do digital, agora que «os ‘millennials’ vão começar a chegar aos cargos de topo». Acredita que «há desintermediação», mas não tanto na área de investimento, que acredita que «continuará a existir». E o investimento é para continuar.

As mudanças na intermediação não assustam a Remax nem Manuel Alvarez, para quem «é necessária, dá confiança, e nesse sentido estamos tranquilos». Mas admite que «é preciso cada vez mais ler rapidamente as tendências de mercado, numa questão de meses». E este ano continuará «muito bom», já que «continua o receio da banca». No entanto, lembrou que «as realidades do país são muito diferentes, e o preço médio da moradia em Portugal ainda não chega ao de 2006».

A eficiência energética estará também cada vez mais presente no imobiliário, mas também na mobilidade. Carlos Jesus, da ZEEV, acredita que «as pessoas querem veículos para se mover, mais do que possuir um carro, e creio que o imobiliário será assim também. Ainda se vendem muito poucos automóveis elétricos, mas assistimos a um crescimento importante». E a tecnologia das baterias deverá ser eventualmente aplicada às habitações.

Dando a perspetiva da arquitetura, Margarida Caldeira, da Broadway Malyan, recordou que «as inovações vão multiplicando a sua capacidade», e a necessidade do bom senso na tomada de decisões, bem como a flexibilidade e a adaptabilidade enquanto palavras de ordem. 

Os Pequenos Almoços Conferência da VI são organizados no InterContinental Lisbon.

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